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Uma dolorosa separação, que evolui para alívio, que ganha ares de adolescência tardia, que volta a doer, que só depois entra na calmaria....

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Uma dolorosa separação, que evolui para alívio, que ganha ares de adolescência tardia, que volta a doer, que só depois entra na calmaria. Vivi todas as importantes fases de autoconhecimento que transcorrem após uma mudança tão drástica no meio do caminho. No fim, cheguei no ponto em que gostaria e almejava. Feliz, em paz e, principalmente, maravilhosamente sozinha.

Aquela solteirice dos sonhos _que antes eu achava ser recalque dos encalhados_ finalmente foi alcançada. Minha presença me bastava. Ficar na companhia de um parceiro por mais de 24 horas já me dava coceira. "Cheguei no auge!", pensei.

Mas um encontro bastou. Em bem menos que 24 horas eu, que antes estaria prestes a devolver o rapaz ao local do encontro, estava firmando um compromisso de namoro. O sentimento que me preencheu em nada se parecia com uma arrebatadora paixão. Era mais como o alívio de voltar para casa depois de uma longa viagem. Um reencontro tranquilo e seguro. Uma agradável surpresa.

Deste primeiro e definitivo encontro, saí com um cordão e uma linda pedra dente de tigre pendurada. "É para te proteger. Tem a minha energia, que agora está com você", Johnny disse. Não tirei mais.

Franco não estava comigo no fim de semana em que tudo pra mim ganhou novas cores. Mas ele logo percebeu que algo tinha mudado definitivamente.

- O que é isso no seu pescoço, mamãe?

- É um colar, filho.

- Quem te deu?

- O Johnny.

- Por que ele te deu?

- Ah, filho... Acho que é porque ele gosta muito da mamãe... Quis que eu lembrasse dele... Assim... Foi um presente, entende? A gente se conheceu, ele me deu antes de ir embora e...

- É uma coleira, mamãe?

Franco, certeiro, ouviu uma gargalhada como resposta. E sorriu de volta.

***

No tempo de uma hora entre um jogo da Copa do Mundo e outro, a banca de jornal fica movimentada. Pais e mães com seus filhos tiraram al...

Choro de dor


No tempo de uma hora entre um jogo da Copa do Mundo e outro, a banca de jornal fica movimentada. Pais e mães com seus filhos tiraram alguns instantes daquele dia para trocar figurinhas. O álbum é meu, Franco não se interessou. Com preguiça de socializar, pedi para o meu marido cuidar das negociações enquanto ficamos em um canto.

Franco se distrai com as pedrinhas que estão no pé de uma árvore. Enquanto eu tentava envolvê-lo num papo meio filosófico sobre as pedras serem como as pessoas, todas diferentes umas das outras, Pedro aparece com um cano de PVC na mão. O garotinho tem seus 5 anos e começa a cutucar a árvore.

- Não faz isso não... Você vai machucar a árvore – tentei interferir.

- É, não faz isso! – Franco completou, um pouco mais incisivo.

- Eu faço o que eu quero! Se vocês não estivessem aqui, eu ia fazer isso do mesmo jeito! – Pedro responde.

Franco me olhou com aquela carinha de "e agora?". Pensei um segundo e tentei não valorizar a atitude do Pedro, mas a discórdia já estava plantada.

- Tudo bem, filho. A gente não tem o que fazer. Se ele não quer fazer o que é certo, tudo bem.

- Mas ele está machucando a árvore!

É, a merda tava feita. Franco tentou segurar o cano para impedir que Pedro continuasse. Destemido, o garotinho de cinco anos que "faz o que quer" empurrou com força e acertou o rosto do Franco. Um grito.

- Larga isso! – Falei com firmeza, já esperando alguma reação desafiadora de Pedro.

Mas Pedro me lembrou que ele era (mesmo) uma criança. Arregalou os olhos, devolveu o cano onde encontrou e correu para perto do pai.

Franco ainda gritava. Eu achava que era de dor.

- Deixa eu ver, filho, machucou?

- Aaaaahhhhh!

- Espera, deixa a mamãe ver...

Nem vermelho estava. Franco não se machucou. Mas ele chorava e era de dor.

- Mamãe, por que ele fez isso com a árvore?

- ...

- Por que ele não parou de machucar a árvore? Por que ele fez isso se não pode?

- Ah, filho... É que ele ainda não aprendeu que não pode fazer isso com a árvore. Mas ele vai aprender, viu? E a mamãe tem muito orgulho de você, tá? Porque você já aprendeu isso.

Franco ficou mais tranquilo com aquela (falsa?) esperança que dei a ele. Abracei. Chorei um pouco na hora.

Era de dor.

***

Há crianças autistas que não falam. Alguns pais passarão a vida inteira sem ouvir uma única palavra de seus filhos. Aquele "eu te a...

Igualmente diferente


Há crianças autistas que não falam. Alguns pais passarão a vida inteira sem ouvir uma única palavra de seus filhos. Aquele "eu te amo" que é quase terapêutico para quem cria/cuida de outro ser humaninho pode simplesmente nunca ser dito.

O Franco fala. Fala. E como fala. Daqueles que fazem jus à piadinha "demorou pra falar, mas depois que começou..." É bem isso, não parou mais. De uns tempos pra cá, aprendeu a falar que me ama.

Na ausência de palavras para definir o quanto isso me fez feliz, realizada, envaidecida, a reação do Franco faz bem esse papel: Ele não para de repetir "eu te amo, mamãe!"

É... autistas são repetitivos. Se eles têm um reforçador então, farão aquilo para se sentir bem inúmeras, inúmeras, incontáveis vezes. A minha reação àquelas três palavrinhas transformadoras deve ter sido um reforçador e tanto. A criança simplesmente não para de falar que me ama. Se ele estiver feliz, animado, fala ainda mais vezes do que o normal.

Assim, longe de mim querer reclamar, mas (tem sempre um "mas")... E quando o eu te amo vira tipo uma vírgula na frase? Ele tá falando de coração mesmo ou tem um tanto de ecolalia nisso aí? E se for só uma frase que ele se sente bem dizendo por causa do reforçador (minha reação)?

Tem sentimento nisso? Não tem? Porque eu tô problematizando em cima disso se é óbvio que essa criança me ama!? Ama mesmo?

Gente... Não era só pra ficar feliz quando o filho fala que ama e ponto?

Não é só isso. Seria cômodo, mas não é. Não posso me conformar com uma frase que infla ego e aquece o coração. Cada detalhe importa e pode determinar o quanto ele vai se desenvolver. Se a frase é dele ou é repetida. Em que momentos fala. É funcional, não é.

A mim, cabe ficar atenta, ligada, não dá pra se contentar. Franco é diferente e precisa de uma mãe igualmente diferente.

- Teve uma coisa hoje que me chamou atenção... A terapeuta ocupacional parecia ter um assunto delicado para tratar. - Hum. O que? -...

Eu sou autista


- Teve uma coisa hoje que me chamou atenção...

A terapeuta ocupacional parecia ter um assunto delicado para tratar.

- Hum. O que?

- Então, hoje tinham outras crianças na sessão, e pedi para o Franco se apresentar. Quando falei pra ele dizer no nome, ele falou: “Eu sou autista”.

- Ele disse isso?

- Eu pedi pra ele repetir e ele disse novamente. Eu entendi: “Eu sou autista”.

- Mas... Nossa... Eu preciso falar com o pai dele... Em casa somos só nos dois, eu nunca falo nada sobre o assunto na frente dele. Mas o pai e a família dele também não. Que estranho... Só se foi na escola, mas, gente...

- Precisa ver isso. Porque ele se identificar como autista pode ser um sinal de que algo não está legal, é um rótulo que precisamos saber de onde está vindo...

- Vou ver e te falo. Obrigada.

Meu sangue já ferveu. Saí da terapia desorientada. Meu filho está se identificando como autista porque alguém disse isso pra ele. Se alguém disse isso, ele já está sofrendo preconceito, o que eu achei que fosse uma preocupação pra daqui uns anos só.

Bom, vou ligar para o pai para saber se alguém comentou sobre “autista” durante a viagem que eles fizeram juntos. Se não foi lá. Só pode ter sido na escola. E se foi na escola... Ah, mas esse bicho vai pegar!

- Não, ninguém falou nada de “autista” perto dele na viagem não. Deve ter sido na escola.

A resposta do pai bastou para a fúria tomar conta do meu coração. Vou chegar na escola, chamar a professora em um canto, colocar uma das minhas mãos no pescoço dela e apertar lentamente. "Você tem ideia de que a sua negligência pode causar um dano psicológico no meu filho e que ele pode regredir nas terapias?" Não, muito radical. "Oi, professora, você por acaso comentou alguma coisa sobre o Franco ser autista na frente dele? A terapeuta pediu para eu ver com voc..." Não, boazinha demais, não demonstra a gravidade da situação.

Fiquei uma hora pensando no que fazer. Tudo isso enquanto preparava a comida do Franco e dava uma arrumada na casa.

- Vem, filho. Vem almoçar.

Ele colocou a cadeirinha vermelha de sempre na minha frente e comecei a dar o almoço. Não estava nem olhando pra ele direito, não queria que ele reparasse na minha indignação. De repente, um click na minha mente.

- Filho, qual seu nome?

Sorrisinho sacana.

- Fala, filho, como você chama?

- O Chase está no caso!

- Como?

- O Chase está no caso!

Meus ombros se descontraíram e deixei escapar uma risada com intensidade desproporcional pro momento. Franco acompanhou e caiu na gargalhada.

Lembrei que, há dias, ele estava chamando a amiguinha da casa da frente de Rubble, um personagem da Patrulha Canina. Eu achei interessante na hora, porque, afinal, conseguir trabalhar com o lúdico e sair do concreto era uma evolução no caso dele.

Ele decidiu que seria o Chase (outro cachorrinho do desenho) e repetia o bordão do personagem. E a junção do final da palavra "Chase" com "está" formava um fonema parecido com "tista", que fez a terapeuta acreditar que ele se identificou como autista.

Franco só queria ser um personagem. E eu querendo apertar o pescoço dos outros por aí.
***

Metódico. Apegado a um ou dois objetos durante dias, semanas. Franco dava sinais de que tinha algo diferente desde seus primeiros meses. ...

Perdida


Metódico. Apegado a um ou dois objetos durante dias, semanas. Franco dava sinais de que tinha algo diferente desde seus primeiros meses. Um dos mais curiosos era exatamente esse apego a um objeto, que não necessariamente precisava ser um brinquedo. Podia ser uma garrafa de água, ou apenas uma peça da bolinha de montar dele.

Em dado momento, ele precisava sempre ter algo azul em uma mão e vermelho na outra. Se pegava uma coisa azul, corria procurar algo vermelho, como se quisesse se equilibrar. É isso. Parecia que aqueles objetos aos quais ele se apegava serviam para dar equilíbrio, organizar a ansiedade dele.

Dá pra imaginar o caos que era quando o objeto da vez sumia, né? Choro. Grito. Crise. O olhar perdido dele fazia parecer que o mundo ia acabar ali, que nada mais fazia sentido. É como se desse pra sentir o que ele sentia.

Passar equilíbrio e tranquilidade pra ele, essa é a minha função na hora da crise. Abaixa, olha nos olhos da criança da altura dela. "Filho, fica calmo. A gente vai procurar e vai encontrar o seu brinquedo, tá? Eu preciso que você fique calmo".

Com o tempo (e as terapias), as crises foram diminuindo. Ele está cada vez menos apegado aos objetos que elege de tempos em tempos e é capaz até de entender que algo ficou na casa do pai e que outro dia buscamos. Evolução.

O equilíbrio, no entanto, não falta só para as crianças. Longe disso. Ontem foi um dia triste. Chorei. Na frente do Franco mesmo. Pois a hora que me deu vontade de chorar ele ainda estava acordado. Não acredito muito nessa história de não demonstrar sentimentos na frente das crianças. Acho que elas entendem e devem saber que está tudo bem ficar triste. Acontece com todo mundo.

Franco parou bem na minha frente e olhou nos meus olhos.

- O que aconteceu, mamãe?

- Eu estou triste, filho.

- Você perdeu seu celular? (Por falar em apego a objeto...)

- Não, filho. A mamãe perdeu algo, mas não foi o celular.

Abraço. Mãozinha no meu rosto. Olhar fixo no meu novamente.

- Precisa procurar com calma. Você vai encontrar. Franco cuida da mamãe.

Cuida. E como cuida.

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- Mamãe, tá muito com fome. - Tá bom. Vou pegar uma banana. - Acabou de comer banana, mamãe. Quer outra coisa. Franco não c...

Empatia


- Mamãe, tá muito com fome.

- Tá bom. Vou pegar uma banana.

- Acabou de comer banana, mamãe. Quer outra coisa.

Franco não come nada salgado nos lanchinhos entre as refeições. Por causa da dificuldade em abocanhar os alimentos (ele só morde a banana), pão e bolacha, por exemplo, não fazem parte do cardápio dele. Seria bom que fizessem, já que as opções que restam são as frutinhas industrializadas e sucos de caixinha.

"Bom, tô de férias, tô com tempo, hoje é o dia de fazer essa criança comer um pedacinho de pão", pensei. Comecei a negociar.

- Vamos comer um pedacinho bem pequenininho de pão antes do suco, tá?

- Franco não gosta de pão. Só a mamãe gosta.

- Mas só experimenta, filho.

- Franco não gosta.

Coloquei ele sentadinho com um pedaço de um centímetro de pão melecado com requeijão na mão.

- Cadê a bocona do Franco corajoso para experimentar?

- Franco é corajoso.

Ele sorriu. Mas não abriu a boca. Repeti o argumento sobre a coragem mais algumas vezes, não deu certo.

Vi uma palestra uma vez que atentava para a importância de exagerar os sentimentos diante das crianças. Segundo a teoria, isso estimula o desenvolvimento de empatia, se colocar no lugar do outro, e os ganhos podem ser incríveis.

Pois bem. Fiz a minha melhor cara de triste.

- Quer a mamãe fica feliz.

- Mas a mamãe tá triste porque você não quis experimentar o pão.

- Faz cara de corajosa, mamãe!

- A mamãe tá triste. Mas pode tomar o suquinho.

Ele tomou e saiu para brincar. Conversou com a vizinha, contou que a mamãe estava triste e voltou.

- Mamãe, o que aconteceu?

- A mamãe ainda tá triste, filho, você não quis experimentar o pão.

- Eu não gosto de pão.

- Mas eu queria que você experimentasse.

Diante da minha encenação de tristeza embasada em muita teoria, estudo e ciência, Franco fez um pedido:

- Mamãe, me entende... (com sua melhor cara de triste).

É. Eu entendo, filho.

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- Mesmo com o autismo, ele pode ter uma vida funcional. Vai crescer, se desenvolver, cuidar das coisas dele. O objetivo aqui é que ele te...

Privilégio?


- Mesmo com o autismo, ele pode ter uma vida funcional. Vai crescer, se desenvolver, cuidar das coisas dele. O objetivo aqui é que ele tenha uma vida plena, conquiste a independência dele.

- Entendo.

- O que precisamos fazer também é perceber quais são as coisas que ele gosta, faz melhor, tem facilidade, e focar nisso para desenvolver essa habilidade e, quem sabe, possa se tornar a profissão dele no futuro.

- Hm.

- Então, por exemplo, se ele gosta de música, a gente oferece estímulo nisso que ele tem mais facilidade desde de cedo. As coisas que ele tiver dificuldade ou não gostar, não precisamos forçar, entende? Não vale a pena gastar energia com isso.

- Claro.

- Óbvio que é importante ele saber ler e tudo mais, mas, se ele não gostar muito de ler, por exemplo, nós não queremos que ele leia centenas de livros, mas que saiba o suficiente para ele ter uma boa vida independente.

Assim foi parte (resumida) da minha primeira conversa com a psicóloga do Franco. Vi que ela tocou no assunto com certo cuidado, enquanto pra mim tudo o que ela dizia soava muito natural. Mas entendo o lado dela. Quem não quer ver seu filho se destacar por sua inteligência e carisma acima da média? Quem não quer vê-lo ser aprovado no vestibular de uma concorrida faculdade? Quem não quer ver o filho ser um artista brilhante, cheio de reconhecimento? Quem não quer que o filho seja um alto executivo de uma multinacional, troque de carro todo ano e viva enfiado num terno?

Eu não quero. E o motivo é muito simples: a vida é dele, não minha. Franco tem 3 anos e meio e ainda não me contou o que quer ser quando crescer. Ele ainda nem me disse se quer ser o melhor no que ele escolher como profissão, ou se pra ele estar na média é o suficiente. Se vai preferir juntar um montão de dinheiro, ou viver com pouco pra ficar mais tempo sem fazer nada. Então, ainda não tenho argumentos para querer nada.

Mas dá mesmo para entender o cuidado da psicóloga ao contar que “Ei, pode ser que seu filho não atenda todas as SUAS expectativas, tá? Mas ele, com a vida DELE, pode ser muito feliz e realizado, ok?” A ideia era mostrar que não há motivo para tanta pressão na hora do aprendizado. Que não tem necessidade de falar três idiomas fluentemente, fazer mestrado, doutorado, e todas as exigências de padrão de sucesso que têm sido impostas como ideais. Só se ele quiser e puder fazer isso.

Me senti acolhida com a conversa. A ideia de moldar a educação de acordo com a aptidão do Franco e o que lhe traz satisfação fazia sentido pra mim. Mas saí de lá com uma dúvida: Por que só as crianças autistas têm esse direito?

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