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Sou de uma família com maioria esmagadora de mulheres. Fala-se pelos cotovelos. Na escola, minha mãe ouvia sempre a mesma observação...

Quê cê qué, fala!

8 Comentários

Sou de uma família com maioria esmagadora de mulheres. Fala-se pelos cotovelos. Na escola, minha mãe ouvia sempre a mesma observação.

- Ótima aluna, muito inteligente... Mas fala demais!

Virei mãe de um menino. Tudo diferente das minhas irmãs menores que eu acompanhei o crescimento. Com quase dois anos, nada de o Franco querer falar.

- Menino é assim, demora mais para tudo! – dizia um. – Daqui a pouco desembesta e você vai perguntar onde desliga! – apostava outro.

É. Muita ansiedade da minha parte mesmo, daqui a pouco fala. Não tem pressa. Me chamava atenção ainda o fato de Franco não nos solicitar, mostrar as coisas. Sabe a cena de Monstros S.A. em que a Boo recebe o Sally no quarto dela e sai toda animada pegando os brinquedos para mostrar pra ele? Então, não rolava isso. Independente, né? Vai ver ele se basta. Isso é bom, na verdade.

Nas primeiras vezes que ele nos puxou pela mão para apontar coisas que queria, foi uma verdadeira euforia! Ele está interagindo e de maneira funcional! Afinal, ele praticamente está pedindo o que quer, e isso é quase se comunicar. Ou não é?

Os puxões evoluíram para a frase mais ouvida na casa durante um ano: “Quê cê qué?”. Franco repetia todas as vezes que queria algo. Fazia sentido, era o que perguntávamos a ele todo o tempo.

- Filho, o que você quer?

Sagaz da parte dele antecipar o que nós diríamos caso ele pedisse algo. Eita, garoto inteligente orgulho da mamãe!

À época, ele ainda não havia sido diagnosticado com autismo. Eu sequer imaginava que a tal frase (indício de esperteza acima da média para a mamãe coruja aqui) era um padrão de fala comum entre crianças com TEA. A ecolalia.

Franco repetia a frase inteira, sem saber exatamente que significado tinha, mas por entender que algo iria satisfazê-lo depois que ela fosse dita. A ecolalia tardia (predominante no caso do Franco) faz com que a criança decore frases inteiras e as coloque em situações que entende ser adequadas.

Esse sintoma característico do autismo nos presenteou com momentos hilários. Como a vez em que o Franco mal sabia falar, mas, para mostrar irritação, lançou em tom revoltado com pronúncia perfeita:

- Isso não é justo!

Ou então quando eu pedi que ele carregasse uns livros até a mesa:

- Cuidado para não deixar cair filho.

Alguma associação se fez rápida na cabeça do Franco. Ele se lembrou de algum desenho que havia assistido e respondeu altivo:

- Deixa comigo, mamãe!

Com o tempo, a repetição do “que cê qué?” ganhou a versão “quê cê qué, fala!?”, reflexo da comunicação de pais ansiosos por uma resposta. Ele não respondia. Na verdade, aquilo não era se comunicar de fato. Franco usava os interlocutores como ferramentas para conseguir o que queria.

E só.
***


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8 comentários:

  1. Sabe o que é doido? Todo mundo inventa manual pra tudo... mas não tem manual para maternidade. .. É tipo aquela música do Cazuza. .. o nosso amor a gente inventa
    ... no mais é pegar a caneta e escrever essa história( ou o blog, né? Rs). Bjao e parabéns pelo espaço.

    Eli

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  2. Odhara, parabéns pela iniciativa,é muito importante a conscientização sobre autismo, pois o TEA é muito mais comum do que se imagina e o diagnóstico precoce é fundamental para um prognóstico mais favorável, através da intervenção psicológica e fonoaudiológica. E tb é comum que os pais se. descubram autistas no momento do diagnostico do filho( COMIGO FOI ASSIM, HOJE CONSIGO COMPREENDER O PQ DE MINHAS DIFICULDADES, MUITAS SUPERADAS, MAS MUITAS ATÉ HJ AINDA CARREGO) e impressionante como o comportamento de Franco coincide com o de minha filha Cecília quando tinha mais ou menos a mesma idade. Através da terapia comportamental ( ABA) e muita vontade de superar-se, hoje, aos 7 anos, ela tem corportamento praticamente idêntico às crianças consideradas neurotípicas, apenas com estereotipias ainda presentes, que estão desaparecendo, aos poucos. E é surpreendente como o desenvolvimento autista é mágico, acontecendo aos saltos, de repente ela falou a primeira palavra, "oi", numa véspera de natal, com 3 anos e 3 meses, começou na mesma época a nos olhar, a sorrir, brincar de bonecas e aí tb tivemos a incrível surpresa de que ela já escrevia, lia, em português e inglês. Foi um grande salto pra quem até essa idade, comportava-se como um verdadeiro zumbi, sem expressão, praticamente. Ela continua nos surpreendendo, a cada dia e muito nos ensina. Eles fazem a diferença! E vamos acompanhar as felizes surpresas que Franco nos reserva. Grande beijo a cada um de vcs, um especial ao nosso pequeno guerreiro.

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  3. O amor seu e do Luiz, sugera qualquer pedra no caminho. Não sei por que meu primeiro comentario não saiu, mas sabe que tem tiozão aqui para o que der e vier, tiozão gordão que ama voces 03 de montão. Como diz vcs corintianos.....kkk, tamo junto. Beijão muito grandão para nosso Franco

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  4. Odara, a ecolalia do Franco me lembrou muito uma fase do meu filho Bento. Temos um blog também www.benditoespectro.blogspot.com.br
    Beijos!

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  5. Estou tendo a oportunidade de estar perto de vocês.De ver o carisma e empatia que o Franco com seu sorriso e simpatia provoca.Se aproximar dela é instintivo.é carinhoso e sei olhar parece um mistério.Mas o melhor de tudo é a forma como você, Odara fala do Franco e a tolerância que tem para não reforçar seu choro ou manhãs típicos também da idade.oferecer espaço para ele brincar e explorar na frente
    da casa com seus brinquedos ou deixa lo solto na festa de aniversário da nova amiguinha e ele entrar e sair sozinho do pula pula sem ficar stressada ou superprotetora.Com certeza está oferecendo a ele espaço para aprender a se virar sozinho.A cada dia um passo.O caminho se faz ao andar e o que importa é investir hoje.sem expectativas e ansiedade do que ainda vira.Estamos por perto.Se precisar é só chamar.

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    1. Foi um presente pra nós ter pessoas tão carinhosas e iluminadas ao nosso lado nessa nova fase! Nessa vida, as coisas não acontecem MESMO por acaso, como diz o clichê. Obrigada por fazer parte da nossa vida!

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  6. "Crianças são luzes em nossa vida"frase de Dom Decio .Agora temos duas por perto:Franco e Rafaela e ambos com seus perfis estão aprendendo a conviver.Fiquei feliz ao perceber que ao me sentar e ficar na sua altura ele me viu e passou a trazer seus brinquedos , que são muitos, e colocar na minha mão.Estava morrendo de vontade de abraça -lo mas respeitar limites é meu forte, então esperei o momento certo.
    Antes de sair pra voltar pra Sampa esperei ele sair pra brincar.Falei bom dia e ele pareceu não me ouvir.Como toda mãe educando seu filho e lembro muito bem da minha mãe fazer isso até hoje,Odara disse pra ele:"diz bom dia Franco".Ele nem se rogou, como eu faço, e voltou a procurar um brinquedo em sua "caixa mágica " e estendeu pra eu pegar.Esse foi o seu bom dia.Aí quis arriscar e falei pra ele:-Estou indo viajar e vou sentir saudades,me dá um beijo.Já estava sentada na sua frente e ele olhou ....e veio de costas e percebi que ele ia sentar no meu colo e fiquei surpresa,pois nunca havíamos nos tocado, abracei de leve mas com uma vontade imensa de apertar e sentir seu corpinho.Recebi um beijo gostoso e como um gato ele saltou rápidinho pra pegar outros bichinhos e me encantou quando devolvi a galinha pintadinha e ele fez co co co.Adorei a despedida e já estou com saudades do meu cantinho na Ilhabela cheio de luz...

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  7. "Crianças são luzes em nossa vida"frase de Dom Decio .Agora temos duas por perto:Franco e Rafaela e ambos com seus perfis estão aprendendo a conviver.Fiquei feliz ao perceber que ao me sentar e ficar na sua altura ele me viu e passou a trazer seus brinquedos , que são muitos, e colocar na minha mão.Estava morrendo de vontade de abraça -lo mas respeitar limites é meu forte, então esperei o momento certo.
    Antes de sair pra voltar pra Sampa esperei ele sair pra brincar.Falei bom dia e ele pareceu não me ouvir.Como toda mãe educando seu filho e lembro muito bem da minha mãe fazer isso até hoje,Odara disse pra ele:"diz bom dia Franco".Ele nem se rogou, como eu faço, e voltou a procurar um brinquedo em sua "caixa mágica " e estendeu pra eu pegar.Esse foi o seu bom dia.Aí quis arriscar e falei pra ele:-Estou indo viajar e vou sentir saudades,me dá um beijo.Já estava sentada na sua frente e ele olhou ....e veio de costas e percebi que ele ia sentar no meu colo e fiquei surpresa,pois nunca havíamos nos tocado, abracei de leve mas com uma vontade imensa de apertar e sentir seu corpinho.Recebi um beijo gostoso e como um gato ele saltou rápidinho pra pegar outros bichinhos e me encantou quando devolvi a galinha pintadinha e ele fez co co co.Adorei a despedida e já estou com saudades do meu cantinho na Ilhabela cheio de luz...

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