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Franco e Lucca, melhores amigos Franco é tão sociável que muitas pessoas duvidam do diagnóstico de autismo. “Imagina, ele não fica no...

Grito

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Franco e Lucca, melhores amigos

Franco é tão sociável que muitas pessoas duvidam do diagnóstico de autismo. “Imagina, ele não fica no canto dele, sorri, brinca com os outros”. De fato, ele faz tudo isso. Mas algumas dificuldades e outras tantas peculiaridades nos fizeram investigar. Foi bom. A primeira coisa que fiz foi pesquisar tudo o que podia. Li dezenas de textos, assisti a palestras no YouTube. Queria estar preparada para o que viria. Ilusão.

Lucca e Franco se conheceram antes mesmo da mãe dele e eu sabermos de suas existências. As barrigas cresceram juntas e eles nasceram com apenas 11 dias de diferença. E foi no aniversário de seu mais antigo companheiro que minha ficha caiu. Ali eu entendi que aquilo tudo era muito maior do que eu.

Crianças brincando, tudo correndo bem, até que Lucca ganhou um presente. Franco decidiu que tinha o direito de pegar, abrir e brincar ali na hora. Não tinha.

- Filho, não pode. Nós vamos guardar esse, e você vai brincar com os carrinhos.

Imagine um grito. Bem alto. Daquele que domina e não deixa espaço nem pro pensamento. Franco entrou em crise. Tremia e berrava até perder o ar. Lágrimas vertiam no rosto vermelho.

- Calma, vem aqui!

Eu tentava falar baixo com ele, abraçá-lo, olhar nos olhos. “MEU DEUS! Em casa isso funciona, por que não está funcionando? Bem aqui! Na festa do menino, cheio de gente! Não posso nem dar o brinquedo agora, isso seria reforçar a atitude negativa, não? Vai fazer esse escândalo toda vez que quiser algo e nunca mais eu vou ter paz! Deus do céu, faz ele parar!!!!” Não parava.

Cada grito provocava um silêncio maior dentro de mim. Não sei dizer se as pessoas em volta olhavam e julgavam, não reparei. Mas eu sentia como o fizessem. Alguns minutos se passaram e Franco não se acalmou.

Sentei na escada, derrotada, e senti uma lágrima esquentando meu rosto. A mãe do Lucca, minha amiga querida, tinha ido buscar o brinquedo para dar ao Franco. Ela deu, ele parou. “Pronto! Passou...”, ouvi algumas pessoas dizerem com carinho, em tom de alívio. Não passou pra mim.

- Não precisava, amiga... O brinquedo é do Lucca. Uma hora ele ia parar.

Eu disse isso sem nenhuma convicção ou força. Não tinha sobrado.

- Imagina, amiga, está tudo certo. Ele está ótimo!

Algumas vezes, Franco perde o controle e se sente tão mal que chora e grita sem parar quando isso acontece. Eu, mãe, entendi ali que nunca o terei. Jamais poderei controlar como as pessoas veem meu filho ou reagem ao seu jeito de ser. O grito dentro de mim é constante, o desafio é não ensurdecer.
***


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6 comentários:

  1. Acompanho toda semana seus relatos e adoro cada um deles.Parabéns pela leveza como escreve sobre um assunto tão sério e principalmente por não se curvar diante dos falsos "diagnóstico " é daqueles que ao não ter conhecimento do assunto tratam como mera "frescura".
    Tenha certeza de que o Tempo e o Franco lógico ,rsrs irão te recompensar por isso!.

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  2. Acabei te de ter um filhote e sabe o que é triste? Mães são julgadas o tempo todo. .. Se esta dando certo, se não está. ... Já tomei chocho por pegar meu filho demais no colo... Imagino você tendo que se acertar com tanta coisa nova e ainda esses olhares de fora...Ainda bem que você é Odarinha do funk(piada interna), e não se abala(tanto )com isso...❤

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  3. Me senti na sua pele. Parabéns pelo texto

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  4. Boa noite Odara. Se você pudesse, nesse instante, ver uma foto minha e de minha esposa, nos veria vertendo lágrimas... Eu ouvi esse grito ensurdecedor no dia em que resolvi eu mesmo cortar o cabelo do Theo, um grito tão alto que mais parecia um animal sendo esfaqueado. E apesar do volume e da intensidade aquele grito doeu muito mais no coração do que no ouvido. Não me preocupo muito com o que as outras pessoas estão pensando, porém, sem pre me pego preocupado com olhares do tipo "Eles não estão educando direito esse menino" ou "Dá um tapinha pra colocá-lo no lugar dele" ou algo parecido. Parabéns mais uma vez pelo texto cheio de emoção e verdade Odara. Estou escrevendo e olhando o Theo rasgando mais uma chupeta (ele rasga uma por dia)... Tenham uma boa noite e durmam com Deus.

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  5. Parabéns por essa coluna, Odara! Através dela, percebemos sua luta contra tudo e todos, por amor ao seu filho. Não é fácil!!
    Muita força e amor pra você e seu Franco!
    Fiquem com Deus!
    Um beijo.

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  6. Odara, que objetividade a sua em dizer do grito de Franco! Foi algo assim que presenciei e me motivou a escrever. E aí, a mãe precisa não se desesperar pelos que ouvem, acalmar a criança que grita e se controlar na própria insegurança de não saber o que fazer além de aceitar a ajuda da amiga que traz o brinquedo. Até para as mulheres, acostumadas às múltiplas ações, o desafio é enorme. Mas, você, nós sabemos, não desiste! Abraços!

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