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"Autistas precisam de rotina rígida. Dessa forma se sentem seguros e conquistam grandes avanços". Ok, sei disso. "Do contr...

Confusão

3 Comentários

"Autistas precisam de rotina rígida. Dessa forma se sentem seguros e conquistam grandes avanços". Ok, sei disso. "Do contrário, eles ficam sujeitos a ter crises, se desorganizam, e podem demorar a conquistar independência, autonomia". Os gritos incessantes a cada vez que tento guardar os brinquedos do Franco pra dar uma ajeitada na casa não me deixam esquecer disso.

Mas será que é isso mesmo? Criar um mundo em que tudo acontece exatamente no mesmo horário e do mesmo jeito é a única forma de fazer uma criança com TEA se sentir segura e preparada? Ainda estou tentando descobrir. Se a ideia é que ele ande sozinho e me devolva o direito de morrer (acho que todos os filhos roubam esse direito dos pais por um tempo), a meta de simular infinitas situações possíveis para que Franco esteja preparado me parece utópica.

Algumas dessas questões preencheram meus pensamentos nas últimas semanas. Uma decisão - combinada com circunstâncias da vida - fez com que a configuração da nossa família mudasse. Mas e o Franco nisso tudo? Mais uma vez surpreendeu.

Uma das principais dificuldades do autismo é demonstrar sentimentos como as outras pessoas. Muitas vezes, eles não sabem bem o que sentem e acabam sendo agressivos, ou simplesmente se fecham por não conseguir expressar.

Em um dos primeiros dias em que Franco e eu estávamos na nossa nova casa...

- Quero ir pra casa.

- Essa é a nossa casa agora, filho.

- O que você tem?

Franco fez a pergunta. Mas, como seu padrão de fala ainda apresenta ecolalia tardia (repetição de frases que ele já ouviu na vida), ele reproduziu a pergunta que gostaria que eu fizesse a ele. Eu atendi.

- O que você tem, filho?

- Estou confuso.

Num instinto, quis tirar aquele sentimento dele. Abracei forte, encostei meu rosto na sua cabeça.

- Não fica assim, filho. Vai dar tudo certo, viu?

Confusão mesmo se formou dentro de mim. A culpa por fazê-lo passar por aquilo foi inevitável. Mas nada, nada se compara à alegria de testemunhar o grande passo que ele deu ali. Franco parou na minha frente e disse exatamente o que sentia. E não era chateação por uma peça do quebra-cabeça ter sumido. Foi algo profundo. Ele buscou aquilo na alma para me mostrar.

Eu poderia me torturar pensando em quantas vezes mais ele se sentirá confuso na vida. Mas não consegui. Estava maravilhada imaginando quantas sensações Franco ainda vai descobrir que existem e tive certeza de que ele vai saber lidar com todas elas. A seu modo.

***


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3 comentários:

  1. Boa tarde Odara... Senti falta de seus textos por um pequeno período e acho que agora entendo essa ausência... Seu texto mais uma vez me fez viajar, me fez refletir... A nova configuração de sua família eu não posso, não devo e não tenho o direito de comentar, pois qualquer palavra seria vazia de conteúdo... "Mas, e o Franco nisso tudo????". Toda noite eu e minha esposa fazemos uma oração junto com o Theo após ele dormir, hoje o nome de vocês estará em nossas orações.
    Deus ilumine seus passos Odara e os ilumine os caminhos do Franco...

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    1. Obrigada, Helio! Da mesma forma que você e sua mulher aguardam os textos toda semana, também fico ansiosa pelos seus carinhosos comentários. Fico muito feliz de conseguir tocar pessoas especiais como vocês. :)

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  2. Olá, Odara! Que belíssimo relato. Pude, a meu modo, sentir a força do avanço alcançado pela "confusão" de Franco. Verdadeiramente, foi um voo alçado a grandes alturas. Abraços! 07/8/16.

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