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- Mesmo com o autismo, ele pode ter uma vida funcional. Vai crescer, se desenvolver, cuidar das coisas dele. O objetivo aqui é que ele te...

Privilégio?

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- Mesmo com o autismo, ele pode ter uma vida funcional. Vai crescer, se desenvolver, cuidar das coisas dele. O objetivo aqui é que ele tenha uma vida plena, conquiste a independência dele.

- Entendo.

- O que precisamos fazer também é perceber quais são as coisas que ele gosta, faz melhor, tem facilidade, e focar nisso para desenvolver essa habilidade e, quem sabe, possa se tornar a profissão dele no futuro.

- Hm.

- Então, por exemplo, se ele gosta de música, a gente oferece estímulo nisso que ele tem mais facilidade desde de cedo. As coisas que ele tiver dificuldade ou não gostar, não precisamos forçar, entende? Não vale a pena gastar energia com isso.

- Claro.

- Óbvio que é importante ele saber ler e tudo mais, mas, se ele não gostar muito de ler, por exemplo, nós não queremos que ele leia centenas de livros, mas que saiba o suficiente para ele ter uma boa vida independente.

Assim foi parte (resumida) da minha primeira conversa com a psicóloga do Franco. Vi que ela tocou no assunto com certo cuidado, enquanto pra mim tudo o que ela dizia soava muito natural. Mas entendo o lado dela. Quem não quer ver seu filho se destacar por sua inteligência e carisma acima da média? Quem não quer vê-lo ser aprovado no vestibular de uma concorrida faculdade? Quem não quer ver o filho ser um artista brilhante, cheio de reconhecimento? Quem não quer que o filho seja um alto executivo de uma multinacional, troque de carro todo ano e viva enfiado num terno?

Eu não quero. E o motivo é muito simples: a vida é dele, não minha. Franco tem 3 anos e meio e ainda não me contou o que quer ser quando crescer. Ele ainda nem me disse se quer ser o melhor no que ele escolher como profissão, ou se pra ele estar na média é o suficiente. Se vai preferir juntar um montão de dinheiro, ou viver com pouco pra ficar mais tempo sem fazer nada. Então, ainda não tenho argumentos para querer nada.

Mas dá mesmo para entender o cuidado da psicóloga ao contar que “Ei, pode ser que seu filho não atenda todas as SUAS expectativas, tá? Mas ele, com a vida DELE, pode ser muito feliz e realizado, ok?” A ideia era mostrar que não há motivo para tanta pressão na hora do aprendizado. Que não tem necessidade de falar três idiomas fluentemente, fazer mestrado, doutorado, e todas as exigências de padrão de sucesso que têm sido impostas como ideais. Só se ele quiser e puder fazer isso.

Me senti acolhida com a conversa. A ideia de moldar a educação de acordo com a aptidão do Franco e o que lhe traz satisfação fazia sentido pra mim. Mas saí de lá com uma dúvida: Por que só as crianças autistas têm esse direito?

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4 comentários:

  1. É bem verdade, tenho dois filhos mais velhos para além do meu autistinha, e dou comigo com expectativas bem diferentes em relação a eles. Injustamente...

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  2. "Deixemos a vida correr" - Parece uma atitude muito simples Não é? Mas não é... Bem o sabemos. Hoje fico muito preocupado com meu envelhecimento e com a qualidade desse meu envelhecimento, não por mim, nunca me preocupei com o que como ou exercícios físicos, mas pelo Theo, pelo meu filho. Será que quando eu me for ele estará preparado para a vida sem mim ou sem a mãe dele. Hoje o futuro me assusta muito, coisa que não acontecia há dois anos e meio.
    Odara, espero que todas as transições que estão acontecendo em sua vida sejam para te levar a dias mais calmos e tranquilos, para você e para o Franco. E por falar no Franco, o olharzinho dele sempre me comoveu desde a primeira vez que o vi e não foi diferente nessa foto... Espero seus textos...

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    1. É 18 de janeiro de 2017. Essa mesma pergunta me consome desde abril de 2016. E se eu me for, e quando nós pais não estivermos mais aqui. E se meu filho não estiver preparado...

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  3. De quem foi a decisão que ainda na 1ª infância é necessário definir até a profissão do futuro adulto? Por que a pressa em decidir por condições, limites e possibilidades? As variantes na vida são tantas que todos os planejamentos não passam de lampejos. Tenho preocupação com o "desespero pedagógico" de alfabetizar a criança cada vez mais, mais cedo. Olho com muita desconfiança esse querer coletivo de preparar a criança para o vestibular, mesmo que ela só tenha 6 meses de idade. O Tempo zomba de cada criatura que não pode somar um só segundo à sua breve existência. É isso aí Odara, não tenha pressa, mas tenha sempre essa vontade de vivenciar com o Franco tudo o que a Natureza possibilitar. Abraços! 10/9/2016.

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