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Evitar as crises. Administrar as crises. Controlar as crises. Muitas vezes, a rotina parece se basear apenas nisso. Você fica pisando em ...

Sem controle

8 Comentários

Evitar as crises. Administrar as crises. Controlar as crises. Muitas vezes, a rotina parece se basear apenas nisso. Você fica pisando em ovos para não ter que passar minutos (até horas!) com aquele grito ecoando pela casa. Sem nenhum motivo que pareça aceitável. Quando se vive no fio da navalha, sem poder errar na tomada de decisão (seja ela de interromper ou não uma brincadeira pra cumprir a rotina ou algo do tipo) existe um risco. E, pasmem, mães também fogem do controle.

Festa marcada em outra cidade, meses de planejamento, chegou o grande dia. Aparecemos cedo no lugar, logo encontramos um espaço para crianças com uma cama elástica. "Ufa! Entretenimento garantido para o Franco por algumas horas". Pula daqui, pula dali, e a fome da criança apareceu num susto. Dá-lhe choro, grito, e eu correndo para a cozinha do buffet para esquentar a comida dele.

- Oi, gente, tudo bem? Vou só esquentar a comida dele rapidinho, tá? Faço tudo aqui num cantinho – falei para as moças que estavam na cozinha, enquanto o Franco chorava grudado na minha perna.

Rapidamente saquei os potinhos, fui colocando no prato e uma mulher veio até mim:

- Olha, você não pode entrar aqui. Espera lá fora que a gente esquenta.

- Moça, é rapidinho! Vou colocar no prato, um minutinho naquele micro-ondas ali, ó, e já saio.

- Não pode ficar aqui.

- Vou esquentar e já estou saindo.

- A gente esquenta.

- Você não está querendo deixar eu esquentar a comida do meu filho? É isso? Deixa eu te explicar uma coisa. EU VOU COLOCAR ESSA COMIDA NAQUELE MALDITO MICRO-ONDAS E JÁ SAIO!

Franco chorando ainda. Muito. Assim como era o desejo daquele poço de sensibilidade, eu também queria sair logo dali. Mas havia uma criança aos prantos e aquilo precisava ser resolvido, afinal.

- Você é muito mal-educada, sabia? Vai entrando, assim, não pede nada... Fala que vai esquentar a comida. Você não pode entrar aqui desse jeito!!!! Nós estamos trabalhando, sabia? Onde já se viu uma coisa dessas!!!!! Você INVADIU a cozinha!!!!!

Ela simplesmente nunca parava de falar enquanto eu fazia o prato do Franco. Minha mãe ouviu os gritos e chegou para ver o que estava acontecendo. Eu, de costas, percebi que ela pedia calma para a mulher e dizia que eu já ia sair.

- Meu Deus, mãe! A criança está chorando de fome grudada na minha perna e ela não para de falar! – eu reagi, indignada.

- EU NÃO TENHO CULPA SE VOCÊ DEIXA O SEU FILHO PASSAR FOME!!!

"Deixa o seu filho passar fome". Ela disse exatamente essa frase. Na hora, me veio na cabeça todo o esforço para manter a rotina e garantir que a criança não desenvolva uma seletividade alimentar. A aflição que dá cada vez que ele olha para a comida, vira a cabeça e a gente pensa. "Ai, Deus, será que ele vai criar um bloqueio e nunca mais vai querer comer?" Com o Franco ainda grudado na minha perna, a essa altura berrando bem mais, me lembro de ter pensado ainda: "Por que eu estou ouvindo tudo isso?" Não, eu definitivamente não precisava ouvir aquilo.

Com a mesma colher que eu estava AINDA tentando fazer o prato do Franco, eu avancei naquela mulher. Nem vi que minha mãe estava entre mim e ela. Vi óculos (e alguns pastéis ainda sem fritar) voarem pela cozinha.

- Olha o Franco, filha! Olha o Franco! – minha mãe implorava.

Eu só queria fazer ela parar de falar. Ela não parou.

- Você sabe com quem você está falando????????? – ela me perguntou.

- COM QUEM SERÁ QUE EU ESTOU FALANDO? – rebati, rindo de nervoso.

- Eu sou a dona desse buffet!

Só consegui olhar para a funcionária dela (uma fofura de garota, que cochichava baixinho no meu ouvido pra eu me acalmar, que ela ia me ajudar) e dizer:

- Você ouviu, né? Eu só não posso ser grossa e folgada com ela, porque é dona. Se fosse com você, que é funcionária, tava tudo certo!!!! Olha o que essa pessoa pensa da vida.

O safanão fez com que ela parasse de falar um pouco. Coloquei o prato no micro-ondas, esperei longos 60 segundos, peguei minhas coisas e saí. Franco comeu. Não tudo, mas comeu. Fiquei o resto da festa sentada em frente daquela cama elástica. De ressaca. Dessa vez, foi o "meu mundinho" que se desorganizou e as coisas saíram do controle.

(BONUS! Sabe a funcionária fofa? Ficou a tarde inteira comigo na salinha das crianças. Uma linda surpresa em meio ao caos que foi aquele dia. Assunto para o próximo post!)


***



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8 comentários:

  1. Oi Odara!!! adoro seus posts, toda semana vou correndo no blog para ver se já saiu mais alguma publicação, me identifico muito com você, sou mae de um menino de 3 anos, diagnosticado com autismo leve, mas que tem seletividade alimentar, crises...enfim! suas publicações me ajudam bastante, pois sei que não estou sozinha nesse novo universo que descobrimos apos o diagnostico do joão. Muito Obrigada!!! bjs Aline

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  2. Depois que terminei a leitura, pensei: eu preciso ter mais calma com as coisas da vida e com o mundo. Será que ando meio sem 1,0 g de paciência? Fiquei preocupado porque me senti agitado e pronto para atacar. Que coisa! Como o descontrole assume a gente quando a gente não aguenta controlar tudo! Abraços a você, querida Odara e ao Franco.

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  3. Como é difícil lidar com certas situações não? Estamos sempre prontos a matar alguém por nossas crias. Precisamos manter a calma em algumas situações em que isso parece definitivamente impossível... Odara, no final tudo vai dar certo! Esse tem sido o mantra oficial aqui em casa... Que nosso pai ilumine sempre seus passos e os do Franco... Mais uma vez seu texto tocou em algo escondido em meus pensamentos...

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. "Você sabe com quem está falando" é um verdadeiro clássico

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  6. Segurei o choro aqui lendo esse post. Só consigo imaginar a angústia que deve ser ter que passar por esses momentos. A gente pode estar plenamente consciente de uma dificuldade com nossos filhos, mas nunca temos a menor ideia do que vamos sentir em determinadas situações. Tudo é aprendizado pra ele e pra você também, as descobertas e evoluções dele são descobertas e evoluções pra você também. Você vai "crescer forte e saudável" assim como Franco! Um dia de cada vez... Confiança, você consegue!

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  7. Oi Odara, pela primeira vez estou lendo no seu Blog e como me estou identificando com ele. A minha filha Hannah tem 3 anos e tb tem autismo! A gente mora na Suíça e ainda fica mais difícil de vc conviver com outras pessoas derivado ao facto de aqui ser tudo tão certinho! Ser estrangeiro aqui ja é difícil por si só, dp vc ter um filho autista, ja viu! Até hoje a minha Princesa não consegue pedir seja o que for pela fala, sempre nos puxa para mostrar o que ela deseja! O que vc descreveu nessa situação nos ajuda bastante a refletir ém como reagir em uma situação semelhante que poderá acontecer a qualquer momento, e como é importante manter a calma! Bem sabemos que por vezes é difícil, a terapeuta da Hannah diz que o melhor que se pode fazer nesse tipo de situação é falar que o nosso filho tem autismo. Claro que tb pode acontecer de essa pessoa em causa nem sequer saiba o que é o autismo! Temos de nos manter confiantes.

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