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- Mamãe, tá muito com fome. - Tá bom. Vou pegar uma banana. - Acabou de comer banana, mamãe. Quer outra coisa. Franco não c...

Empatia

2 Comentários

- Mamãe, tá muito com fome.

- Tá bom. Vou pegar uma banana.

- Acabou de comer banana, mamãe. Quer outra coisa.

Franco não come nada salgado nos lanchinhos entre as refeições. Por causa da dificuldade em abocanhar os alimentos (ele só morde a banana), pão e bolacha, por exemplo, não fazem parte do cardápio dele. Seria bom que fizessem, já que as opções que restam são as frutinhas industrializadas e sucos de caixinha.

"Bom, tô de férias, tô com tempo, hoje é o dia de fazer essa criança comer um pedacinho de pão", pensei. Comecei a negociar.

- Vamos comer um pedacinho bem pequenininho de pão antes do suco, tá?

- Franco não gosta de pão. Só a mamãe gosta.

- Mas só experimenta, filho.

- Franco não gosta.

Coloquei ele sentadinho com um pedaço de um centímetro de pão melecado com requeijão na mão.

- Cadê a bocona do Franco corajoso para experimentar?

- Franco é corajoso.

Ele sorriu. Mas não abriu a boca. Repeti o argumento sobre a coragem mais algumas vezes, não deu certo.

Vi uma palestra uma vez que atentava para a importância de exagerar os sentimentos diante das crianças. Segundo a teoria, isso estimula o desenvolvimento de empatia, se colocar no lugar do outro, e os ganhos podem ser incríveis.

Pois bem. Fiz a minha melhor cara de triste.

- Quer a mamãe fica feliz.

- Mas a mamãe tá triste porque você não quis experimentar o pão.

- Faz cara de corajosa, mamãe!

- A mamãe tá triste. Mas pode tomar o suquinho.

Ele tomou e saiu para brincar. Conversou com a vizinha, contou que a mamãe estava triste e voltou.

- Mamãe, o que aconteceu?

- A mamãe ainda tá triste, filho, você não quis experimentar o pão.

- Eu não gosto de pão.

- Mas eu queria que você experimentasse.

Diante da minha encenação de tristeza embasada em muita teoria, estudo e ciência, Franco fez um pedido:

- Mamãe, me entende... (com sua melhor cara de triste).

É. Eu entendo, filho.

***


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2 comentários:

  1. Texto lindo, gostei muito. Gostaria muito de uma conversa desta com meu filho. Chegamos lá!

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  2. É isso aí, Odara, que beleza de diálogo! Franco tem decisão e Odara insistência. Gera-se a compreensão e a criança se faz entender. É bom tê-la de volta neste espaço de expressões abertas. Um enorme abraço a você, ao Franco e ao pessoal que passa por aqui.

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