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Metódico. Apegado a um ou dois objetos durante dias, semanas. Franco dava sinais de que tinha algo diferente desde seus primeiros meses. ...

Perdida

10 Comentários

Metódico. Apegado a um ou dois objetos durante dias, semanas. Franco dava sinais de que tinha algo diferente desde seus primeiros meses. Um dos mais curiosos era exatamente esse apego a um objeto, que não necessariamente precisava ser um brinquedo. Podia ser uma garrafa de água, ou apenas uma peça da bolinha de montar dele.

Em dado momento, ele precisava sempre ter algo azul em uma mão e vermelho na outra. Se pegava uma coisa azul, corria procurar algo vermelho, como se quisesse se equilibrar. É isso. Parecia que aqueles objetos aos quais ele se apegava serviam para dar equilíbrio, organizar a ansiedade dele.

Dá pra imaginar o caos que era quando o objeto da vez sumia, né? Choro. Grito. Crise. O olhar perdido dele fazia parecer que o mundo ia acabar ali, que nada mais fazia sentido. É como se desse pra sentir o que ele sentia.

Passar equilíbrio e tranquilidade pra ele, essa é a minha função na hora da crise. Abaixa, olha nos olhos da criança da altura dela. "Filho, fica calmo. A gente vai procurar e vai encontrar o seu brinquedo, tá? Eu preciso que você fique calmo".

Com o tempo (e as terapias), as crises foram diminuindo. Ele está cada vez menos apegado aos objetos que elege de tempos em tempos e é capaz até de entender que algo ficou na casa do pai e que outro dia buscamos. Evolução.

O equilíbrio, no entanto, não falta só para as crianças. Longe disso. Ontem foi um dia triste. Chorei. Na frente do Franco mesmo. Pois a hora que me deu vontade de chorar ele ainda estava acordado. Não acredito muito nessa história de não demonstrar sentimentos na frente das crianças. Acho que elas entendem e devem saber que está tudo bem ficar triste. Acontece com todo mundo.

Franco parou bem na minha frente e olhou nos meus olhos.

- O que aconteceu, mamãe?

- Eu estou triste, filho.

- Você perdeu seu celular? (Por falar em apego a objeto...)

- Não, filho. A mamãe perdeu algo, mas não foi o celular.

Abraço. Mãozinha no meu rosto. Olhar fixo no meu novamente.

- Precisa procurar com calma. Você vai encontrar. Franco cuida da mamãe.

Cuida. E como cuida.

***


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10 comentários:

  1. Se fosse crime demonstrar Oiã sentimentos perto das crianças eu já estaria em perpétua.

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  2. Criança compreende (entende com) e se solidariza. Hoje, quando disse à criança de 4 anos que eu também chorava quando a abelha me picava, a fala da pequena foi: - Doeu muito, muito, muito né!? Não esconder-se da criança é ensiná-la que também os adultos podem chorar. Só quem chora entende! As lágrimas de Odara são compartilhadas por quem admite que pode chorar como uma criança.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Oi estou passando por uma situação bem difícil e não seu como agir, na vdd fiz como a maioria faz corri atrás de materiais para ler e me inteirar do assunto, tenho um sobrinho que acredito ter um grau leve de autistmo, e lendo tuas postagem, e tantos materiais que já li, tenho cada vez mais certeza disso. O problema que sou tia/cunhada, e não tenho coragem e entrar no assunto com minha cunhada, falei com meu marido, mas ele também não sabe o que fazer, e fico angustiada, pois acredito que ela não tenha coragem de se questionar sobre o assunto, prefere não ver, achar que é birra, que a criança esta chateada. Me ajude, como devo agir?

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  5. Oi, Vivian! Acho que a informação e o diálogo são sempre os melhores caminhos! Que tal mostrar um texto no qual você tenha visto características do seu sobrinho? Sua cunhada pode se interessar em se informar sobre o assunto... Espero que dê certo! Beijos!

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  6. Olá, Odara! Achei seu blog procurando assuntos relacionados ao autismo. Sua trajetória com o Franco é linda e você coloca tudo de uma forma tão bonita que me fez me sentir muito próxima a vocês. Meu filho tem 3 anos e fala muito pouco, com comportamento semelhante a PDD-NOS (TID-SOE, em português). Embora sejam situações distintas, me identifiquei muito com várias situações que você apresentou. Às vezes é somente isso que eu preciso, saber que tem alguém no mundo capaz de compreender como é difícil. Muito obrigada por ter tido a ideia de dividir sua experiência com o mundo. Assim como a primeira médica, você também ajudou a melhorar uma vida, a minha.
    Tudo de bom pra você e o Franco!

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  7. Oi, Amanda! Totalmente verdade! É muito bom identificar nossas dúvidas em outros casos e sentir que não estamos sozinhas, né? Parece que tudo fica mais leve e dá aquela sensação de que vai ficar tudo bem. Obrigada pelo seu relato! <3

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  8. Olá Odara.Sou Elaine mãe do Pp.
    Estou lendo seu blog por conta do meu filho de 20 meses. Ele está apresentando algumas características que para eu como mãe compreendo ser TEA. Mas o medo da rejeição pela classe médica em investigar o caso dele me faz paralisar diante a condição.
    Meu filho tem movimentos muito repetitivos, anda na ponta dos pés, gira em torno dele mesmo. Não presta atencao a nós que falamos com ele. Ama música. Tem loucura se ficar sem o naninha dele. Reage com o desequilíbrio das cores como vc explicou. Não fala nada. Ou faz repetição do que ouve por último várias vezes. Não gosta de multidão. Mas o que mais me preocupa é uma obsessão em cheirar e beijar objetos partes do nosso corpo.
    Será que tudo isso passa de um coincidência de características que estou vendo do momento infantil? Ou é TEA?
    Teria algo para me indicar?

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  9. Oi, Elaine, acho que você tem motivos para procurar um profissional especializado para ir atrás do diagnóstico. Eu indicaria você pesquisar o histórico do profissional para ver se ele tem vasta experiência em pacientes com TEA, pois isso será muito importante!

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  10. Que texto lindo! E essa coisa de se apegar a um objeto para tentar 'equilibrar'a si mesmo ou as coisas ao redor é muito parecido com o TOC. Maravilhoso vc ter isso de querer compreender e ajudar a angústia do seu filho!

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